domingo, 13 de setembro de 2015

O Ofício de Jesus


A média de alfabetização nas províncias romanas era de 10%. Alguns estudiosos entendem que, na palestina, onde situava-se Nazaré (vilarejo onde Jesus cresceu), a taxa era ainda menor, próxima dos 3%. As pessoas de lugares pobres como este não tinham meios de alfabetização (não haviam escolas nas aldeias), e tampouco haviam livros em suas casas. Somente a aristocracia tinha meios para adquirir certa cultura escrita. Não é possível, portanto, sabermos se Jesus fora instruído além do ofício familiar que recebera de seu pai José.

Na verdade, nas aldeias da Galileia o povo não sentia necessidade de ler e escrever. Nestes povoados de cultura oral, as pessoas tinham uma grande capacidade de reter na memória cantos, orações e tradições populares, que eram transmitidas de pais para filhos. Neste tipo de sociedade pode-se ser sábio sem dominar a leitura nem a escrita. Podemos imaginar que na casa de Jesus, assim como nas outras, não havia livros para ler, tampouco pergaminhos para escrever, e certamente Jesus não frequentou nenhuma escola de escribas nem foi discípulo de nenhum mestre da lei, como Paulo.

Jesus foi um vizinho sábio e inteligente, que ouviu com atenção e guardou na memória orações e salmos. Dessa forma, não precisou recorrer a nenhum livro para medita-lo em seu coração. Sua habilidade para discutir textos das Escrituras e tradições religiosas faz até o mais cético dos homens admitir um talento natural exímio, que compensava o baixo nível de sua formação cultural.

Se tomarmos nossa erudição como parâmetro, não daríamos ouvidos a Jesus e sua mensagem. Certa vez disseram que, para saber se um homem é verdadeiramente erudito, deve-se olhar a quantidade de notas de rodapé em seus livros. Quando vou a livraria, se me deparo com um autor desconhecido, imediatamente procuro suas referências na contra-capa: onde se formou? em que se especializou? até onde foi em sua especialização? Que obras produziu anteriormente? Jesus, no entanto, durante todo seu ministério jamais citou um rabino ou metre da lei, e na própria Escritura, foram poucas as vezes em que as citou de forma literal. Assim, Jesus vivia o que pregava, "falava daquilo que o coração estava cheio" (Mateus 12:34).


O ofício que Jesus aprendeu de seu pai era mais do que um meio de ganhar a vida. A cultura judaica ensinava todas as crianças um ofício, mesmo as mais abastadas que provavelmente jamais iriam utiliza-lo durante a vida. O apóstolo Paulo é um bom exemplo. Mesmo de origem nobre, aprendeu a arte de fabricar tendas na infância.

Sobre o ofício em si, as fontes históricas dizem com clareza que Jesus foi um "artesão". A palavra utilizada nos evangelhos para definir a profissão de Jesus foi o termo grego tectôn. Este termo não pode ser traduzido por carpinteiro, mas sim construtor. Esta palavra designa um artesão que trabalha com diversos materiais, como pedra, madeira e inclusive o ferro. O trabalho de Jesus, de forma alguma correspondia a do carpinteiro de hoje. O construtor trabalhava a madeira, mas também a pedra.

A atividade de um artesão da aldeia abarcava trabalhos diversos. Podemos imaginar os trabalhos que os vizinhos de Jesus solicitavam a ele: consertar telhados feitos de ramos e argila danificados pelas chuvas do inverno, fixar as vigas e pilares de uma casa, construir portas e janelas de madeira, fazer baús, banquinhos, bases de lâmpadas e outros objetos simples.

Em Nazaré não havia trabalho suficiente para um artesão. Por um lado, o mobiliário daquelas humildes casas era muito modesto: recipientes de cerâmica e pedra, cestos, esteiras; o imprescindível para a vida cotidiana. Por outro lado, as famílias mais pobres construíam suas próprias moradias e os camponeses fabricavam e consertavam durante o inverno seus instrumentos agrícolas.

Para encontrar trabalho, tanto José como seu filho, precisavam sair de Nazaré e percorrer os povoados próximos. Portanto, é de se imaginar que Jesus trabalhou na reconstrução de Séforis, a capital da Galileia. Esta grande cidade havia sido totalmente destruída por Roma quando Jesus tinha aproximadamente seis anos de idade. Pouco tempo depois, o novo rei daquela região (Herodes Antipas) iniciou sua reconstrução a todo vapor. A cidade fora totalmente reconstruída em apenas 20 anos! A demanda de mão de obra para as obras na cidade, sobretudo nos templos e palácios, era enorme. Precisava-se principalmente de oleiros e operários da construção. Provavelmente todos os jovens das aldeias vizinhas foram até lá em busca de trabalho. A distância entre Nazaré e Séforis era de aproximadamente quatro quilômetros. Em uma hora de caminhada podia-se percorrer todo o caminho. Portanto, não é difícil imaginar que Jesus tenha trabalhado algumas temporadas nesta cidade.

Com seu modesto trabalho, Jesus era tão pobre como a maioria dos galileus de seu tempo. Não estava no degrau mais baixo da escala social e econômica, pois ainda haviam os escravos e mendigos. Mas Jesus nunca viveu com a segurança de um mero camponês que cultivava a própria terra.

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