segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Pão da Vida


Volta e meia ouço nas igrejas ministros e pastores anunciarem "Jesus é o pão da vida". No entanto, estou convencido de que o significado deste axioma é desconhecido pelos que o ouvem, e por muitos dos que o pronunciam.

Tudo começa na Pesach (páscoa). A páscoa é celebrada anualmente desde os tempos de Moisés (aprox. 1.280 A.C.) no dia 14 de nisan (este é o primeiro mês do calendário judeu, e começa entre os meses que conhecemos como março e abril). No dia 15 de nisan começa uma festa que dura sete dias, a festa dos pães sem fermento, ou pães Ázimos.

Os pães sem fermento (não levedados) Trazem o significado da páscoa judia e também cristã. O que fermento? No contexto bíblico, fermento pode ser leite, ovo... qualquer ingrediente possa ser adicionado à massa e "contaminá-la", causando fermentação. Quando não há fermento numa casa judia durante a páscoa, simbolicamente aquela casa está pura, ou purificada.

Uma vez que chamamos Jesus de "pão da vida", estamos dizendo que Ele é como o pão ázimo: não recebeu fermento, não foi contaminado pelo pecado. Também estamos dizendo que Jesus é para nossa alma o mesmo que o pão ázimo é para nosso corpo: Quando o aceitamos ou comemos o pão, estamos dizendo que Ele é nossa fonte de vida e sustento. 

O pão ázimo (Matzo em hebraico) é traspassado, moído, assim como Jesus foi ferido por nós; levado ao fogo, assim como Jesus foi provado na cruz; e encontrado verdadeiro, digno de confiança.

Agora que entendemos que Jesus é o pão da vida e o que isso significa, precisamos compreender o que é ingerir do pão da vida que é Jesus. Não se trata de uma questão metafísica, reservada ao campo do subjetivismo. É verdade que há um encontro, um momento especial. No entanto, se fosse só isso, Jesus não teria desenvolvido seu ministério, mas tão somente seu sacrifício.

Comer do pão da vida significa ver o mundo pela ótica de Jesus. E a ótica de Jesus é o que este blog procura abordar em primeiro lugar, pois trata-se da horizontalidade da salvação. Nós fomos criados para nos relacionarmos com Deus, mas também com o próximo. Jesus dedicou-se principalmente aos excluídos e oprimidos. Jesus é Deus dos desamparados, dos impotentes e indefesos. Jesus assistiu quem precisava, e convoca a você e a mim para fazermos o mesmo.

Não pense você que, uma vez ingerido o pão da vida, não há mais nada que você possa fazer. o reino de Deus começa na terra, a partir do momento que você o leva para aqueles que precisam mais de você.

domingo, 1 de novembro de 2015

Penso, Logo Deus Existe



O que faz você pensar? 

Qualquer pensamento tem uma origem. Mas qual é essa origem? A resposta mais simples e óbvia e que nosso cérebro que nos faz pensar.

Mas tente responder estas perguntas: de que cor é um pensamento? Que forma tem? Qual seu comprimento, massa, peso...? Quanto tempo leva para pensar?  Quando você pensa em episódios da infância ou em pessoas que conheceu, como essas lembranças ficam guardadas?  Como você acessa esses dados sempre que quer?  

A revista Newsweek publicou recentemente uma matéria comparando o cérebro de duas pessoas em estados mentais diferentes. As imagens coloridas feitas por ressonância magnética nos mostram um cérebro "normalmente consciente" e um cérebro de um budista em meditação profunda (samádi). Essas imagens mostram que áreas cerebrais diferentes "iluminam-se" de maneira correspondente aos diferentes estados do cérebro, influenciados por estados diferentes da mente. Entretanto, como lembra o filósofo Alfred Korzybski"um mapa não é um território". Os estados cerebrais são efeitos de causas que pertencem à mente.

Uma fotografia do cérebro não é uma fotografia da mente nem da consciência. Não há fotografia da mente porque a mente não é uma coisa física. Não podemos tirar fotografias de volições, intenções, atitudes, crenças, apegos, desapegos, concepções, significados, imagens de si mesmo, alegrias ou tristezas, porque essas coisas se originam na mente, e só se espelham no cérebro. O cérebro é o ponto de convergência entre a mente e o corpo físico. A mente tem propriedades que independem do cérebro.

... E o que é a mente? A mente é a consciência, e determina - em parte - o estado cerebral. Neste sentido, mostrar a imagem de um cérebro iluminado de determinada forma e afirmar que isso explica o samádi pode ser comparado a mostrar a fotografia de um pinheiro enfeitado de determinada maneira e afirmar que isso "explica" o natal.

O que nos faz pensar não é o cérebro, mas a consciência. E, em última análise, é o que nos faz concluir sobre a existência do sobrenatural. 

Assim como as formas físicas de energia radiante, o pensamento tem propriedades como amplitude, frequência, intensidade. E, por outro lado, também tem propriedades como apego, sentimento, discernimento... questões que têm a ver com a alma, com quem verdadeiramente somos. E estas são as mesmas propriedades que serão mantidas quando Deus nos transferir do corpo físico para um corpo glorificado, preparado para a eternidade.

Somos o que pensamos. Pensamos o que somos. 

Natural e sobrenatural!  Deus nos fez assim.  O cérebro morre, a mente não. Pensamentos e sentimentos continuarão conosco mesmo após a morte. 


René Descartes, em seu ceticismo, afirmou "cogito ergo sum" (penso, logo existo). Hoje, o legado de Descartes e de seu filho, o Iluminismo, nos permitem dizer, com toda certeza: Penso, logo Deus existe.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Quem Precisa de Amor?


Quem precisa do seu amor? Você já se fez esta pergunta? Já parou para pensar que enquanto você está sentado em um restaurante com ar-condicionado durante seu horário de almoço existem pessoas realmente necessitadas? Não me refiro aos milhões de órfãos desabrigados na África ou os refugiados da guerra na Síria cruzando o mediterrâneo em direção a Europa. Falo do porteiro do seu prédio, do irmão que você quase nunca vê por falta de tempo, do sobrinho que não simpatiza porque sempre "queimou o filme" da família, da idosa viúva do andar de baixo. Todas estas pessoas estão próximas, ma talvez você nunca tenha pensado que elas têm problemas e necessidades. É por isso que Martin Buber desenvolveu a noção do eu-tu, que significa tratar o outro sempre como uma pessoa (tu) e nunca como uma coisa (isto).

As vezes as necessidades destes que nos cercam são reais, como o que comer ou vestir, as vezes são abstratas, como carência de atenção. Mas você só vai ser capaz de perceber isso se começar a olhar para os outros como tu, e não como isto. Se agir assim, você pode acabar descobrindo ser o único capaz de ajuda-las, e amenizar seu sofrimento.

Jesus uma vez contou uma parábola desconcertante: "Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve compaixão. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e disse-lhe: 'Cuide dele. Quando voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver'"

Agora se imagine como um dos ouvintes de Jesus: você já peregrinou mais de uma vez a Jerusalém e conhece bem essa região desértica e perigosa. Sabe como é difícil não topar com assaltantes que se refugiam nestes barrancos e desfiladeiros. É de seu conhecimento também que, esta rota, ao mesmo tempo perigosa, é bastante frequentada. Sacerdotes e levitas passam por ali toda semana depois de terem exercido seus serviços no templo, a caminho de Jericó, importante cidade sacerdotal. Também passam por ali peregrinos e comerciantes com destino a Jerusalém, levando suas mercadorias para a capital.

Ao ouvir falar de um homem assaltado e deixado semimorto na valeta do caminho, você que conhece o lugar e os perigos, sente simpatia e piedade em seu coração. Afinal, é uma vítima inocente, abandonada num caminho solitário e que precisa de ajuda urgente. Este homem poderia ser você! Como não sentir compaixão por ele?

Pare e reflita: na sua vida hoje, quem está sofrendo próximo a você, e que o motivo de dor que o acomete poderia não ter atingido ele, mas sim você?

No caminho daquele homem, felizmente, apareceram dois viajantes: primeiro um sacerdote e depois um levita. Ambos vêm do templo. Já realizaram suas obrigações por lá e estão retornando a sua cidade. O ferido os vê chegar cheio de esperança: são de seu próprio povo; representam o templo, sem dúvida terão compaixão dele. Mas ao se aproximarem, os dois têm a mesma reação: passam pelo outro lado da estrada. Por quê? Têm medo dos assaltantes? Não querem tocar num desconhecido ensanguentado e semimorto para não ficarem impuros (isso os faria ter que retornar e só poderem retomar a viagem dias depois)? Você se sente escandalizado com a falta de compaixão desses dois homens. Como não ajudar um homem abandonado a uma morte quase certa?

No horizonte aparece um terceiro viajante. Não é sacerdote ou levita, não vem do templo. Sequer pertence ao povo eleito. É um odiado samaritano. Provavelmente um comerciante dedicado a seus negócios. O ferido o vê chegar com temor. Pode-se esperar dele o pior. Chegará a liquidá-lo? Mas o samaritano vê o ferido, sente compaixão e aproxima-se dele. Faz pelo ferido tudo o que pode: desinfeta suas feridas com vinho, suaviza a dor com azeite, enfaixa-o para proteger suas feridas da poeira do deserto, coloca-o sobre sua própria montaria, leva-o à hospedaria mais próxima, cuida dele e arca com todos os gastos que forem necessários. Este homem, definitivamente, não parece alguém preocupado com suas mercadorias; assemelha-se mais a uma mãe cuidando com ternura do filho ferido.

Sabe, o conceito abordado por Jesus nesta parábola rompe todas as barreiras. É muito mais profundo do que inicialmente imaginamos. Jesus vê o reino de Deus na compaixão de um odiado samaritano. Já não há classificação entre amigos e inimigos, entre membros ou não de seu corpo (a igreja), entre puros e impuros, entre ricos e pobres. A misericórdia de Deus pode vir de fora do templo, de fora dos canais religiosos "oficiais", pode vir de um inimigo! É desconcertante. Jesus olha a vida a partir da sarjeta, com os olhos das vítimas necessitadas de ajuda. Não há dúvida que para Jesus a melhor metáfora de Deus é a compaixão para alguém ferido. Física ou emocionalmente.

O reino de Deus torna-se presente onde as pessoas atuam com misericórdia. Até um inimigo ou um renegado podem ser instrumento e encarnação do amor compassivo de Deus. A mensagem de Jesus constitui um verdadeiro desafio para todos nós: É preciso esquecer preconceitos e inimizades seculares, é preciso reordenar valores. É preciso estender a misericórdia de Deus a todos e despir-se de valores provincianos de grupos sociais.

A pergunta que você deve se fazer é: "Quem tem necessidade de que eu me aproxime dele, me torne próximo e responda à sua necessidade?" É o sofrimento de qualquer ser humano caído no caminho que nos deve ensinar como agir com amor compassivo.

domingo, 25 de outubro de 2015

O Sofrimento


O sofrimento é um professor. Um professor experiente, um Ph.D especializado na vida. Seu ensino torna mais sensível nossa percepção da condição humana. Depois de cada aula do sofrimento, somos capazes de discernir melhor a impermanência, as ilusões, a fragilidade, as futilidades, a vanidade; a nobreza, a honra, a moral, o caráter e a beleza, relacionados à existência.

Buda disse que estar vivo e consciente é sofrer. Se olharmos para esta afirmação por outro prisma, veremos que ele estava correto. Jesus confirma ao dizer "no mundo tereis aflições". É razoável, portanto, afirmarmos que o sofrimento é "onipresente" entre os seres humanos. Um tipo fundamental de mal-estar pelo qual todos passam, sejam quais forem as causas específicas. Ricos e pobres, homens e mulheres, negros e brancos, jovens e velhos; sofrem igualmente, embora o sofrimento de cada um pareça a si mesmo ser único ou maior que dos outros.

Você conhece alguém que nunca tenha sofrido em nenhum momento? Você também não sofre de vez em quando? Há quem suporte o sofrimento de maneira mais estóica ou humorística que os outros, mas todos, seguramente, sofrem de alguma coisa às vezes, ainda que exprimam isso de maneiras diferentes. Alguns sofrem em silêncio; outros protestam em voz alta. Alguns oram e entregam sua dor a Deus ou mesmo a algum santo, outros se tornam cínicos. Alguns culpam os outros; outros culpam a si mesmos. Alguns odeiam ou matam os outros; outros odeiam ou matam a si mesmos. Alguns buscam fugir do sofrimento; outros sofrem por tentativas de fuga. Alguns atingem metas para distrair-se do sofrimento; outros sofrem por atingirem essas metas ou pela própria distração.

A boa nova é que Jesus nos ensina a lidarmos com o sofrimento. Toda a história da intervenção divina na humanidade, aliás, é repleta dessas lições. A travessia do mar Vermelho poderia ser traduzida por travessia do mar de sofrimento. Ao chegar do outro lado, o povo de Israel passou pelo sofrimento com êxito. E assim também nós podemos e devemos fazer.

Pense na mensagem de Jesus como uma aula de natação: nos ensina a atravessar o mar de mal-estar e chegar à praia do bem-estar. De fato, Ele nos ensina a nadar, nos da trajes de banho e nos previne das correntezas traiçoeiras do caminho. Apenas não nada por nós. Ele está do outro lado esperando para nos saudar como vencedores.

No entanto, ele nos adverte que ao atravessar o mar de sofrimento e chegar a praia de bem-estar, não é o fim de tudo. Uma vez um sábio pastor disse: existem três tipos de pessoas: as que estão passando por tribulação, as que estão saindo da tribulação e as que estão entrando na tribulação. O fim de um ciclo de dor nos prepara para toda uma mistura de outros sofrimentos vindouros. Se você está passando por um grande sofrimento, saiba que, quando acabar, você estará livre para sofrer por outros motivos. Sofrer por doenças, por morte, por morte prematura de entes queridos, por maus casamentos, por más colheitas, mau tempo, maus vizinhos, desemprego, exploração, tributação e tudo o mais. Muito embora também esteja livre para ter períodos  de bons momentos, lembranças felizes, superação no trabalho, um grande amor, paz em sua casa, alegria entre amigos e familiares, etc, entre os ciclos de sofrimento.

O importante disso tudo é saber que há alguém disposto a dividir o peso do seu sofrimento com você. Esse alguém é Jesus, e ele oferece um ombro amigo. Mais que altruísta, ele é o próprio Deus criador de todo o universo, que ama sua criação. Você é parte da criação dele, e por isso ele oferece amor paternal. Aceite, e você verá que seus sofrimentos serão menos doídos a partir de então.

domingo, 18 de outubro de 2015

Bom aos Olhos de Deus


"Dois homens subiram ao templo para rezar: um era fariseu, o outro publicano. O fariseu, de pé, rezava em seu interior dessa maneira: "Ó Deus! Dou-te graças porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como esse publicano. Jejuo duas vezes por semana, dou o dízimo de todos os meus lucros". Por sua vez, o publicano, mantendo-se à distância, nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: "Ó Deus! Tem compaixão de mim porque sou pecador!" Digo-vos que este desceu para casa justificado, e não aquele."

Geralmente esta parábola contada por Jesus é usada para ilustrar como deve ser nossa oração. Isso é verdadeiro, mas assim como no caso da parábola do "grão de mostarda" (que vimos anteriormente), se observarmos com atenção, perceberemos uma lição mais abrangente ensinada por Jesus. Ele destaca três personagens: o fariseu, o publicano e o templo onde Deus habita.

Dos ouvintes imediatos de Jesus, provavelmente todos já haviam peregrinado até o templo (possivelmente por mais de uma ocasião), que era o centro de seu povo e religião. Só ali podia-se prestar culto a Deus. Eles chamavam o templo de "a casa de Deus", pois ali habitava o Deus santo de Israel. Dali Ele bendizia e protegia seu povo. Em outra época, neste mesmo templo, no lugar mais sagrado, estivera a arca da aliança e dentro dela as tábuas da lei. O templo representava a presença de Deus que reinava sobre seu povo por meio dessa lei. Com que alegria apresentavam-se diante dele todos aqueles que a observavam fielmente! O fariseu não é exceção. Provavelmente os dois sobem ao templo na hora em que se oferecem sacrifícios de expiação pelos pecados. Enquanto os sacerdotes realizam os ritos, eles se retiram para examinar sua consciência.

No caso do fariseu, todos já podiam imaginar o que sua consciência dizia, pois todos sabiam bem como eram os fariseus: um homem piedoso que cumpre fielmente os mandamentos, observa estritamente as normas de pureza ritual e paga escrupulosamente os dízimos. É dos que sustentam o templo. Sobe ao templo sem pecado. Deus não pode senão abençoa-lo.

Já o publicano ou arrecadador era alguém que vivia de uma atividade desprezível. Trabalha para arrecadar impostos sufocantes e subir na vida. Sua conversão é impossível. Não poderá retribuir os abusos que cometeu nem retribuir suas vítimas o que lhes roubou. Não pode sentir-se bem no templo. Ali não é o seu lugar.

O fariseu ora de pé, sem nenhum temor. Sua consciência não o acusa. Ele não é hipócrita, tudo o que diz é real. Cumpre fielmente todos os mandamentos, jejua duas vezes por semana, embora a lei só exigisse uma vez ao ano, paga o dízimo de tudo o que ganha, enquanto a lei cobrava somente os dízimos dos produtos do campo. Não se atribui mérito algum, Deus é quem o sustenta. Se este homem, um modelo de fidelidade a Deus, não é justo, quem o será? Com certeza pode contar com a benção de Deus, é o que pensavam os que ouviam Jesus. É o que pensamos nós. Você conhece alguém que, aos seus olhos, é como este fariseu? Alguém que você crê, é mais digno da presença do Senhor que você mesmo(a)?

O arrecadador de impostos, por sua vez, mantém-se à distância. Não se sente a vontade, não se acha digno daquele lugar santo. Ele sabe o que os que estão a sua volta pensam a seu respeito: desonesto, infiel, corrupto. Sequer atreve-se a levantar os olhos do chão, e bate no peito para reconhecer seu pecado e sua vergonha. Não promete nada. Não pode restituir o que roubou de tantas pessoas cuja identidade desconhece. Não pode deixar seu trabalho e mudar de vida. Não tem outra saída senão abandonar-se a misericórdia de Deus. "Ó Deus, tem compaixão de mim" ele ora. Não faz senão reconhecer o que todos já sabem. Ninguém gostaria de estar em seu lugar. Deus não pode aprovar sua vida de pecado. Você já se sentiu assim? Já esteve em algum templo e, olhando para o lado, reconheceu um publicano e desejou não estar em seu lugar? Ou já se sentiu tão indigno e desejou não ser você mesmo?

Jesus conclui que o fariseu não encontrou o favor diante de Deus. Ora, tanto aquelas pessoas como nós pensamos: qual o pecado do fariseu? Qual sua falta para não merecer a graça de Deus? No templo, Deus acolhia os justos em sua presença e excluía os pecadores e impuros. Estaria Jesus contradizendo Deus? Como pode Jesus dizer que Deus acolhe o impuro e rejeita o justo?

A verdade é que as coisas já não funcionam mais a partir da justiça elaborada pela religião. A observância da lei e o culto do templo são substituídos por um convite a viver da misericórdia insondável de Deus.

Jesus quer atrair você para uma experiência real que todo ser humano percebe no fundo do seu ser. Quando alguém se sente bem consigo mesmo e diante dos outros, quando se apoia em sua própria vida, não parece precisar de mais nada. Mas quando a consciência o declara culpado e desaparece a segurança, não sente então o ser humano a necessidade de refugiar-se na misericórdia de Deus e somente em sua misericórdia?

Quando alguém age como o fariseu, situa-se diante de Deus a partir de uma religião na qual não há lugar para o arrecadador de impostos. Quando alguém se confia a misericórdia de Deus, como o arrecadador, situa-se numa religião onde cabem todos.

Não confie em você mesmo, tampouco menospreze a si mesmo. Tão somente confie na misericórdia de Deus.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Fantástico Como um Grão de Mostarda


"Com o reino de Deus acontece o mesmo que acontece com um grão de mostarda. É menor que qualquer semente que se semeia na terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior que todos os arbustos e deita ramos tão grandes que os pássaros do céu aninham-se à sua sombra."

Jesus poderia ter falado de uma figueira, uma palmeira ou uma vinha, como tradicionalmente os rabis faziam. Mas ele não era como os rabis de sua época.

A linguagem de Jesus é desconcertante e sem precedentes. As pessoas esperavam a vinda de Deus como algo grande e poderoso. Naquela época, os esperançosos recordavam de maneira singular do profeta Ezequiel, que falava de um "cedro magnífico" plantado por Deus em "uma montanha elevada e excelsa", que "lançaria ramagem e produziria fruto", servindo de abrigo a todo tipo de pássaros e aves do céu.

No entanto, de maneira surpreendente, Jesus escolhe a semente de mostarda, a menor semente conhecida até então (e a menor até hoje, ao menos no campo proverbial): um grão do tamanho de uma cabeça de alfinete, que com o tempo se transforma num arbusto de três ou quatro metros, no qual, por volta de abril, se abrigam pequenos bando de pintassilgos, que gostavam muito de comer seus grãos. Esta era uma cena que todo camponês na palestina podia contemplar ao entardecer.

Geralmente os evangelistas destacam a pequenez da semente em contraste com a altura da planta. Esta é uma boa comparação. Porém, se observarmos com atenção o texto, veremos que Jesus falava de algo mais profundo.

Para aquelas pessoas, a ação de Deus era como o cedro, que faz pensar em algo imponente, grandioso, poderoso. E esta é a grande metáfora: a semente de mostarda sugere algo fraco, insignificante, pequeno.

Nós, assim como os primeiros ouvintes de Jesus, esperamos algo fantástico e grandioso de Deus em nossas vidas. Queremos milagres e revelações hollywoodianas, pensamos que provisões e curas dignas de um filme são a verdadeira ação de Deus em nossas vidas, e prova de que estamos "bem conceituados" com Ele, sendo aprovados.

Essa postura, ao contrário do que pensamos sumariamente, é quase uma heresia. Primeiro porque NADA do que possamos fazer nos fará mais ou menos merecedores da graça salvadora de Jesus. Depois que, qualquer experiência sobrenatural que você possa vir a ter, não é privilégio seu. Somos todos igualmente pecadores e indignos da presença de Deus, lembra? Sendo assim, Deus proporciona grandes experiências espirituais a qualquer que o buscar, como diz o profeta Jeremias. E ainda, o extraordinário, o cedro, até acontece; temos relatos bíblicos e dois mil anos de biografias para comprovar. Mas o verdadeiro milagre é o grão de mostarda, o imperceptível.

A ação salvadora de Deus se deu de forma deveras humilde, através de Jesus. Hoje não é diferente: um dia de sol inesperado na vida de quem trabalha com obra, um dia chuvoso repentino na vida de um agricultor. Um trânsito inesperadamente bom no dia de quem vai passar horas dirigindo entre bairros na sua cidade, uma desistência de última hora num consultório médico em que você, que está sentindo-se mal ha dois dias, pode ser encaixado e atendido.

Quero encorajar você a ver a verdadeira ação de Deus, o grão de mostarda em sua vida. E quando o fizer, agradeça a Ele por algo tão simples mas ao mesmo tempo tão fantástico.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

As Coisas Precisam Mudar


Você já parou para pensar o que de fato Jesus esperava (e espera) das pessoas no mundo? Jesus falou tanto do reino de Deus, mas você já pensou em sobre como Ele imaginava sua implantação? O que será que Jesus pensava que deveria acontecer para que o reino de Deus se concretizasse em algo bom para as pessoas? Será que Ele pensava apenas na conversão daqueles que o ouviam, para que Deus transformasse seus corações e reinasse num numero cada vez maior de seguidores? Será que Jesus buscava apenas a purificação da religião ou pensava numa transformação social e política em Israel, no Império romano e, definitivamente, no mundo todo?

Certamente Jesus não pregou um reino de Deus vago ou subjetivo. A irrupção de Deus pede uma mudança profunda. Jesus chama todos a mudarem suas maneiras de agir e pensar. Jesus nos ensina que para "entrar" no reino de Deus é preciso inserir-se na dinâmica proposta pelo próprio Deus e construir a vida conforme Ele deseja.

Para Jesus, é preciso que uma sociedade seja um povo que se pode dizer que Deus reina entre eles; ser inteiramente de Deus. Uma nação onde não há brigas entre família, corrupção, insultos, agressões, abusos dos mais fortes e esquecimento dos mais indefesos. Longe disso, um povo livre de todo tipo de escravidão e opressão, onde todos possam desfrutar de maneira justa e pacífica de sua terra e seu lar, onde não há explorados nem exploradores, onde as crianças não morrem de fome e os idosos vivem uma vida digna. Isaías 65:20-22 diz: "Nunca haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem será maldito. Construirão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão do seu fruto. Já não construirão casas para outros ocuparem, nem plantarão para outros comerem.".

Nos tempos de Jesus, muitos pensavam que a única maneira do reino de Deus chegar era a expulsão dos romanos impuros e idólatras. Essa visão míope é repetida por nós hoje em dia, infelizmente. Muitos pensam que só é possível um país melhor com mudanças em todos os escalões do governo e uma reforma política. Sem dúvida, esse argumento é valido, mas é apenas parte do processo. Parte de um processo que começa nos lares, escolas, igrejas e demais locais de convivência.

Pelo que podemos saber da Bíblia e fontes históricas, Jesus nunca teve em mente uma estratégia de caráter político ou mesmo religioso. O importante, segundo Ele, é que todos entrem na dinâmica do reino de Deus. Não é um compromisso religioso, mas uma atitude com profundos reflexos nas ordens políticas e sociais. Porque os que governam, os que julgam e os que elaboram leis são pessoas, seres humanos, que eventualmente estão na porta ao lado. Se essas pessoas forem inseridas no reino de Deus, também vão inserir o reino de Deus na sociedade. E é nosso compromisso fazer parte deste movimento.

Para Jesus, não é possível entrar no reino e acolher a Deus como salvador e ao mesmo tempo acumular riqueza as custas dos pobres. Veja, não é uma questão de quantia; cada um pode ter o quanto lhe for possível e permitido. O que Jesus trata é da exploração, da desigualdade. Ele trás de volta uma nuança da lei de Moisés ha muito esquecida: "abençoe na medida que tem sido abençoado". Nós precisamos viver isso. E precisamos levar isso a cada pessoa a nossa volta, para que toda a sociedade seja contagiada e uma mudança real aconteça em nosso país.

Uma coisa interessante a respeito da visão de Jesus de "reino" pode ser notada em uma palavra: "basileia" tem sido traduzida como reino, mas na época de Jesus era específica para referir-se ao "império" de Roma. O que Jesus quer dizer com isso é que devemos "abandonar" o império desse mundo, ou seja, abandonar os valores pregados pelo mundo. O mundo prega corrupção e ganho de vantagem a custa de terceiros; em contrapartida, no reino de Deus, a lógica é a justiça social e o amor ao próximo.

Quando Jesus diz "Não andem preocupados com coisa alguma, nem o que comer, nem o que vestir. Busquem primeiro o reino de Deus e todas essas coisas serão acrescentadas". Ele não está falando de uma intervenção divina milagrosa como erroneamente pensamos, mas sim uma mudança de comportamento que possa levar TODOS a uma vida mais digna e segura.

Se você acreditar nisso, a realidade de nossa nação vai mudar. Eu acredito, e estou fazendo minha parte. Mas como diz o ditado, uma andorinha só não faz verão. Se você se juntar a mim nessa luta, nosso verão, o futuro do Brasil, será infinitamente melhor do que podemos imaginar.